Entre as perguntas que mais chegam sobre o chimarrão, uma se repete nas mesas de mate e nos consultórios: o chimarrão faz mal para os rins ou pode causar pedra no rim? A dúvida não é à toa. A erva-mate é uma das bebidas mais consumidas no Sul do Brasil, e ao mesmo tempo a pedra nos rins — o cálculo renal — atinge boa parte da população adulta em alguma fase da vida, muitas vezes ligada à pouca ingestão de líquidos.
A resposta curta é: para adultos saudáveis, o chimarrão tomado com moderação normalmente não faz mal para os rins e, pelo grande volume de água quente da cuia, chega a favorecer a hidratação — justamente o que mais protege contra pedras. Os cuidados de verdade existem para quem já tem cálculo renal recorrente, doença renal crônica ou pressão alta que sobrecarrega os rins. Nesses casos, dois compostos do mate merecem atenção: o oxalato e a cafeína.
Neste artigo, vamos ver o que a ciência diz sobre erva-mate e rins, o que é mito e o que é verdade, e como ajustar a rotina de chimarrão para continuar mateando sem colocar a saúde renal em risco.
Aviso importante: Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui orientação médica. Se você tem pedra nos rins, doença renal crônica, pressão alta que afeta os rins ou forma cálculos com frequência, consulte seu nefrologista ou clínico geral antes de mudar a rotina de consumo de chimarrão.
O Que a Ciência Diz Sobre Erva-Mate e os Rins
Para entender a relação entre chimarrão e rins, vale começar pelo que mais protege esses órgãos: a hidratação. O fator número um na formação de pedras é a urina concentrada — quanto menos líquido se bebe, mais os minerais se acumulam e cristalizam. Por isso, a recomendação clássica dos nefrologistas é beber bastante água ao longo do dia.
E aqui está o primeiro contrassenso do senso comum: o chimarrão é, em boa parte, água quente. Uma tarde de mate pode representar mais de um litro de líquido. Embora a cafeína da erva-mate tenha efeito levemente diurético, as evidências disponíveis mostram que, em moderação, a cafeína das bebidas como chá e mate não desidrata — a água ingerida mais do que compensa o efeito. Ou seja, o chimarrão costuma entrar no “lado positivo” do balanço hídrico, não no negativo.
Além da hidratação, a Ilex paraguariensis traz compostos estudados por possíveis efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios — as mesmas catequinas, saponinas e ácido clorogênico que aparecem nos estudos sobre erva-mate e diabetes e absorção de ferro. Alguns trabalhos preliminares sugerem efeito protetor sobre os rins em modelos experimentais, mas a evidência em humanos ainda é limitada e nada disso transforma o mate em remédio.
Pedra nos Rins e Oxalato: O Que a Erva-Mate Tem a Ver
A maioria das pedras nos rins — cerca de 80% — é formada por oxalato de cálcio. O oxalato é uma substância presente em muitos alimentos (espinafre, beterraba, chocolate, nozes e também em algumas bebidas vegetais) que, em excesso na urina, se liga ao cálcio e cristaliza.
É nesse ponto que entra a pergunta sobre a erva-mate: ela contém oxalato? Sim, contém. A questão é a quantidade. As bebidas mais conhecidas por concentrar oxalato são o chá-preto e o chá-verde, costumamente apontados como os de maior teor. As análises disponíveis sobre a erva-mate tendem a colocá-la em níveis moderados e, em geral, abaixo do chá-preto — embora os estudos sobre o teor exato de oxalato da Ilex paraguariensis ainda sejam limitados e variem conforme o tipo de erva, a moagem e o tempo de infusão.
O que isso significa na prática? Para a pessoa saudável, o oxalato do chimarrão não costuma ser problema: o rim filtra e elimina o excesso sem dificuldade, desde que a urina esteja diluída por boa hidratação. Já para quem forma cálculos de oxalato de cálcio com frequência, todo oxalato da dieta importa — e aí o mate entra numa conversa maior, ao lado de outros alimentos, com o nefrologista.
Há ainda um detalhe prático e liberador: o cálcio na refeição reduz a absorção do oxalato. Por isso, a orientação atual não é cortar todos os alimentos com oxalato, mas sim consumi-los junto de fontes de cálcio e manter a urina sempre diluída. O chimarrão se encaixa bem nessa lógica quando é tomado com moderação e hidratação, e não como substituto da água.
Cafeína (Mateína) e a Função Renal
A mateína — nome popular da cafeína da erva-mate — é outro ponto de atenção. Em adultos saudáveis, a cafeína em doses moderadas (o equivalente a algumas cuias ao dia) é bem tolerada pelos rins. O efeito diurético existe, mas é leve e compensado pelo volume de água ingerido.
Os cuidados com a cafeína aparecem em duas situações. A primeira é a doença renal crônica avançada, em que o médico pode restringir líquidos ou cafeína conforme o caso. A segunda é a relação entre cafeína e pressão alta: a hipertensão não controlada, ao longo dos anos, lesa os rins, e o excesso de cafeína pode elevar temporariamente a pressão em pessoas sensíveis. Para quem vive essa situação, a moderação no mate conversa diretamente com a saúde renal.
A cafeína também interfere no sono e, em excesso, na saúde mental — fatores que, indiretamente, pesam no equilíbrio do corpo inteiro, rins incluídos. Por isso, calibrar a quantidade de erva-mate na cuia e respeitar o melhor horário para tomar chimarrão é uma decisão que vai além do sabor.
Hidratação: Por Que o Chimarrão Pode Ser (Quase) Amigo dos Rins
Se a desidratação é a grande vilã da pedra nos rins, o chimarrão bem tomado pode estar do lado certo da história. Uma garrafa térmica cheia, passada em roda de chimarrão durante a tarde, representa um aporte considerável de líquido. Em dias frios, quando a sede diminui e a pessoa “esquece” de beber água, o ritual do mate acaba cumprindo um papel hidratante valioso — parecido com o raciocínio do chimarrão para resfriado e gripe, em que o calor e a hidratação reconfortam.
Mas há uma ressalva importante: o chimarrão não substitui a água pura. O ideal é manter o hábito de beber água ao longo do dia e usar o mate como complemento, não como única fonte de líquido. E, claro, sem açúcar: o mate amargo é a forma mais amiga dos rins. Bebidas adoçadas e ricas em frutose estão associadas a maior risco de pedras e de sobrecarga metabólica, então açúcar no mate vai na direção oposta à saúde renal.
O Ponto de Atenção: Fumaça, PAHs e a Qualidade da Erva
Existe um motivo real para ser seletivo sobre qual erva-mate se bebe — e ele não tem a ver com pedra, mas com a forma como a erva é seca. O processamento tradicional da erva-mate usa fumaça de madeira, no sapeco e na barbaquá, para secar e fixar o verde das folhas. Esse método artesanal entrega o sabor característico, mas pode depositar hidrocarbonetos — os PAHs, como o benzo[a]pireno — na erva final.
Esse é um tema estudado em amostras de erva-mate e yerba mate no Brasil e na Argentina, e a presença desses compostos varia bastante conforme o nível de defumação e o controle do processo. O processamento industrial moderno, com secagem por ar quente, tende a reduzir bastante esses resíduos. Para o consumidor, a leitura prática é simples: prefira erva de boa procedência, de marcas que controlam o processo de secagem, o que também dialoga com os selos de qualidade e certificações e com a erva-mate orgânica. Vale conferir nosso ranking de melhores marcas de erva-mate e entender como a erva-mate é produzida para escolher bem — e, claro, armazenar a erva corretamente para ela não estragar.
Chimarrão x Chá Mate x Tereré: Alguma Diferença para os Rins?
A forma de preparar a erva-mate muda a quantidade de compostos extraídos e, com isso, o peso sobre os rins:
- Chimarrão tradicional — preparado com água entre 70°C e 80°C na cuia com bombilla, é a forma que mais extrai oxalato e cafeína ao longo das reposições. É também a mais hidratante pelo volume de água. O ponto de equilíbrio está na moderação e na boa hidratação paralela.
- Chá mate (mate cocido) — a erva-mate tostada preparada por infusão tem perfil parecido, com extração relevante de compostos. Vale a mesma lógica de hidratação e moderação.
- Tereré — feito com água fria ou gelada, o tereré extrai menos oxalato e cafeína do que o preparo quente, sendo a opção mais “leve” nesse sentido. Ainda assim, contém esses compostos em grau menor.
Em resumo: o preparo frio tende a ser o mais brando para quem precisa vigiar oxalato e cafeína, mas o fator decisivo para os rins continua sendo a hidratação total do dia e o bom senso — não apenas a temperatura da água.
Diretrizes Práticas Para Quem Tem (ou Quer Evitar) Pedra nos Rins
1. Hidrate-se Além da Cuia
Beba água pura ao longo do dia, todos os dias, até a urina ficar clara ou amarelo-clara. O chimarrão ajuda na conta de líquidos, mas não a substitui. Manter a urina diluída é a medida isolada mais eficaz contra a formação de cálculos.
2. Tome o Mate Sem Açúcar
O mate amargo é a forma mais amiga dos rins. Açúcar e xaropes aumentam o risco metabólico e a formação de pedras. Se o amargor incomoda, experimente uma erva de moagem mais fina ou ervas naturalmente mais suaves — nunca recorra ao açúcar.
3. Modere a Cafeína
Calibre a quantidade de erva na cuia e evite exagerar no número de cuias, principalmente à noite. Isso protege o sono e evita o excesso de cafeína, relevante para quem tem pressão alta ou sensibilidade individual.
4. Atenção ao Oxalato na Dieta como um Todo
Para quem forma cálculos de oxalato de cálcio, a conversa sobre o mate faz parte de um ajuste maior da dieta, que pode incluir limitar espinafre, beterraba, chocolate e nozes em excesso — sempre com orientação de nutricionista ou nefrologista. Consumir fontes de cálcio junto desses alimentos ajuda a reduzir a absorção do oxalato.
5. Escolha Erva de Boa Procedência e Faça Exames
Prefira ervas com secagem controlada e certificação de qualidade, e armazene-as bem. Se você tem histórico de pedras ou fatores de risco (pressão alta, diabetes, colesterol alto), faça exames de rotina e converse com o nefrologista sobre o seu consumo de chimarrão. A decisão sobre restrições deve vir sempre de um profissional, com base nos seus exames.
Quem Precisa de Atenção Redobrada
O risco de o chimarrão pesar nos rins não é igual para todos. Vale redobrar o cuidado nos seguintes casos:
- Quem forma cálculos com frequência — principalmente de oxalato de cálcio, em que o oxalato da dieta importa.
- Pessoas com doença renal crônica — o médico pode orientar sobre líquidos, cafeína e restrições individuais.
- Hipertensos — a pressão alta não controlada lesa os rins ao longo do tempo; o excesso de cafeína pode ser um fator a vigiar.
- Diabéticos — o diabetes mal controlado é uma das principais causas de doença renal; vale integrar o mate à rotina metabólica com orientação.
- Quem tem histórico familiar de pedras — a tendência a formar cálculos tem forte componente hereditário.
Para esses grupos, o chimarrão não precisa sair da vida, mas merece conversa com o nefrologista e ajustes individuais. Para o adulto saudável, com boa hidratação e hábitos equilibrados, o mate diário costuma conviver bem com rins saudáveis.
Mitos e Verdades Sobre Chimarrão e Rins
“O chimarrão desidrata e faz mal para os rins” — MITO
Em moderação, a cafeína da erva-mate não desidrata: o grande volume de água quente da cuia compensa o leve efeito diurético. Pelo contrário, o chimarrão costuma ajudar na hidratação, que é justamente o que protege os rins.
“A erva-mate é a principal causa de pedra no rim” — MITO
A pedra nos rins tem causas múltiplas — desidratação, dieta, genética e condições como hipertensão e diabetes. A erva-mate contém oxalato, mas em teor geralmente menor que o chá-preto, e raramente é a causa isolada do problema.
“O oxalato da erva-mate pode contribuir para cálculos em quem já forma pedras” — DEPENDE DO CONTEXTO
Para quem tem cálculos recorrentes de oxalato de cálcio, todo oxalato da dieta conta, e o mate entra numa conversa maior com o nefrologista. Para a pessoa saudável, bem hidratada, o oxalato do chimarrão costuma ser eliminado sem problema.
“Beber muita água é a melhor forma de evitar pedras” — VERDADE
Manter a urina sempre diluída é a medida isolada mais eficaz. O chimarrão ajuda nessa conta, desde que acompanhado de boa ingestão de água pura ao longo do dia.
“Colocar açúcar no mate não muda nada para os rins” — MITO
O açúcar e as bebidas adoçadas estão associados a maior risco de pedras e de sobrecarga metabólica. O mate amargo, sem açúcar, é a forma mais saudável da bebida — também para os rins.
Chimarrão e Saúde: Um Equilíbrio Possível
A relação entre erva-mate e rins é um bom exemplo de como uma meia-verdade pode virar medo desnecessário. O chimarrão não é inimigo dos rins — bem pelo contrário, ele pode ser um aliado da hidratação, que é o que mais protege contra pedras. O segredo está no bom senso: tomar o mate sem açúcar, manter boa ingestão de água pura, calibrar a cafeína, escolher erva de boa procedência e menos defumada, e conversar com o nefrologista quando há diagnóstico ou fatores de risco envolvidos.
Assim, a cuia continua passando de mão em mão na roda de chimarrão sem que ninguém precise abrir mão dela — nem da própria saúde. Para quem está começando agora, vale conferir o guia completo para iniciantes e o passo a passo de como preparar o chimarrão perfeito. E se a dúvida for mais ampla sobre os efeitos do mate no corpo, veja também se o chimarrão faz mal à saúde e como a erva-mate se relaciona com o ferro e a anemia.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O chimarrão faz mal para os rins?
Para adultos saudáveis, em consumo moderado, normalmente não. O grande volume de água quente da cuia ajuda na hidratação, que é justamente o que protege os rins. Os cuidados existem para quem já tem pedra recorrente, doença renal crônica ou pressão alta que afeta os rins — nesses casos, o oxalato e a cafeína da erva-mate merecem orientação do nefrologista.
A erva-mate causa pedra nos rins?
A erva-mate contém oxalato, componente das pedras de oxalato de cálcio, mas em teor geralmente menor que o do chá-preto. Ela não costuma ser a causa isolada da pedra e o chimarrão bem tomado, com boa hidratação, não provoca cálculo por si só. Para quem já forma pedras com frequência, vale dosar o consumo e conversar com o médico.
Quem tem pedra nos rins pode tomar chimarrão?
Em muitos casos, sim, desde que sem açúcar, com boa hidratação ao longo do dia e sem exagero na cafeína. O ponto não é abandonar o mate, mas usá-lo com bom senso: erva de boa procedência e menos defumada, bastante água pura além da cuia e orientação do nefrologista sobre o oxalato da dieta.
Tereré e chá mate também afetam os rins?
Sim, porque vêm da mesma planta. O tereré, com água fria, extrai menos oxalato e cafeína que o chimarrão quente, mas ainda os contém. O chá mate (mate cocido) tem perfil parecido. Para os rins, o mais decisivo continua sendo a hidratação total e a moderação, independentemente do preparo.
Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Não substitui orientação médica, nutricional ou farmacêutica. Se você tem pedra nos rins, doença renal, pressão alta, diabetes ou forma cálculos com frequência, consulte seu nefrologista ou médico de confiança antes de alterar sua dieta ou sua rotina de consumo de chimarrão.