Poucas dúvidas geram tanta insegurança entre mateadoras quanto a seguinte: posso continuar tomando chimarrão durante a gravidez e a amamentação? Em uma cultura onde a cuia faz parte do cotidiano — especialmente no Sul do Brasil —, abandonar o mate pode parecer impensável. Mas quando a saúde do bebê está em jogo, é fundamental separar tradição de evidência científica.
Neste artigo, vamos analisar o que a medicina e os estudos científicos dizem sobre o consumo de erva-mate durante a gestação e o período de amamentação, quais são os limites seguros de cafeína recomendados por organizações de saúde, e como adaptar o hábito do chimarrão para esse momento especial da vida.
Aviso importante: Este artigo tem caráter informativo e não substitui a orientação de um médico obstetra ou profissional de saúde. Cada gestação é única — consulte sempre seu médico antes de tomar decisões sobre alimentação e consumo de bebidas com cafeína durante a gravidez ou amamentação.
A Cafeína na Erva-Mate: Quanto Há no Chimarrão?
Para entender os riscos, é preciso primeiro conhecer os números. A Ilex paraguariensis contém cafeína (também chamada de mateína) em concentrações que variam conforme o tipo de erva, a moagem e o modo de preparo.
Valores Médios de Cafeína
Uma cuia de chimarrão preparada com aproximadamente 50 g de erva e reabastecida diversas vezes ao longo de uma sessão típica de mate pode fornecer entre 100 e 200 mg de cafeína total — dependendo de quantas vezes a água é adicionada e do tipo de erva utilizada.
Para comparação, como detalhamos no artigo chimarrão vs café:
- Uma xícara de café coado (200 ml): 80–100 mg de cafeína
- Uma cuia de chimarrão (sessão de 500 ml): 100–200 mg de cafeína
- Um copo de chá verde (200 ml): 30–50 mg de cafeína
A diferença crucial é que a cafeína do chimarrão é consumida de forma diluída ao longo de uma ou duas horas, enquanto o café é ingerido de uma só vez. Esse padrão de absorção gradual pode influenciar o impacto no organismo, mas não elimina os riscos para gestantes.
O Que as Organizações de Saúde Recomendam
Limite da OMS e Sociedades Médicas
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) recomendam que gestantes consumam no máximo 200 mg de cafeína por dia — considerando todas as fontes somadas (café, chá, mate, refrigerantes, chocolate).
O American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) corrobora esse limite, destacando que o consumo acima de 200 mg/dia está associado a maior risco de aborto espontâneo e baixo peso ao nascer.
Por Que a Cafeína Preocupa na Gravidez?
Durante a gestação, o metabolismo da cafeína fica significativamente mais lento. A meia-vida da cafeína — tempo que o corpo leva para eliminar metade da substância — pode triplicar no terceiro trimestre, passando de 3–5 horas para 10–18 horas. Isso significa que a cafeína permanece circulando no sangue materno (e fetal) por muito mais tempo.
Além disso, a placenta não filtra a cafeína de forma eficiente, e o feto ainda não possui as enzimas hepáticas necessárias para metabolizá-la adequadamente. Estudos publicados no British Medical Journal (BMJ) em 2020 reforçaram a associação entre consumo elevado de cafeína e desfechos adversos na gravidez.
Chimarrão na Gravidez: Riscos e Evidências
Estudos Sobre Erva-Mate e Gestação
Pesquisas realizadas no Sul do Brasil — onde o consumo de chimarrão é mais intenso — identificaram associação entre o consumo elevado de mate durante a gestação e menor peso ao nascer. Um estudo conduzido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) analisou gestantes gaúchas e observou que aquelas que consumiam mais de 300 mg/dia de cafeína a partir do chimarrão apresentaram bebês com peso médio inferior aos dos grupos de menor consumo.
A Temperatura Como Fator de Risco Adicional
Além da cafeína, há outro ponto de atenção: a temperatura da água. Como discutimos no artigo sobre como preparar chimarrão perfeito, a água ideal fica entre 70 e 80°C. A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC) classificou o consumo habitual de bebidas acima de 65°C como “provavelmente carcinogênico”. Para gestantes, respeitar a faixa de temperatura adequada é ainda mais importante.
Chimarrão e Absorção de Ferro
Os taninos presentes na erva-mate podem interferir na absorção de ferro não-heme — o tipo de ferro encontrado em alimentos vegetais e suplementos. Durante a gravidez, a demanda de ferro aumenta significativamente, e a anemia ferropriva é uma das complicações mais comuns. Gestantes que tomam chimarrão devem evitar consumir a bebida junto com refeições ou suplementos de ferro, mantendo um intervalo de pelo menos uma hora.
Essa interação com nutrientes é semelhante ao que ocorre com outros alimentos ricos em compostos fenólicos, como explicamos no artigo sobre benefícios e riscos da erva-mate para a saúde.
Diretrizes Práticas Para Gestantes Mateadoras
Se você está grávida e quer continuar mateando, é possível adaptar o hábito dentro das recomendações médicas. Veja como:
1. Calcule Sua Cota Diária Total de Cafeína
Some todas as fontes: chimarrão, café, chá, refrigerantes, chocolate. Se seu único consumo de cafeína for o chimarrão, uma sessão moderada (3 a 4 cuias com pouca erva) pode ficar dentro do limite de 200 mg.
2. Reduza a Quantidade de Erva na Cuia
Usar menos erva — cerca de 30 g em vez de 50 g — reduz a concentração de cafeína por cuia. A erva de moagem grossa tende a liberar cafeína mais lentamente, o que pode ser uma escolha mais adequada.
3. Diminua o Número de Reabastecimentos
Cada adição de água extrai mais cafeína da erva. Limitar a sessão a 300–400 ml de água total ajuda a controlar a dose.
4. Considere Erva-Mate Descafeinada
Algumas marcas já oferecem erva-mate com teor reduzido de cafeína. Embora não sejam amplamente disponíveis em todas as regiões, são uma alternativa para quem deseja manter o ritual sem a preocupação com a cafeína. Confira nosso guia de melhores marcas de erva-mate para opções no mercado.
5. Evite o Chimarrão em Jejum
Consumir cafeína com o estômago vazio pode aumentar os efeitos estimulantes e gastrointestinais. Prefira tomar seu chimarrão após o café da manhã, como sugerimos no artigo sobre melhor horário para tomar chimarrão.
Chimarrão na Amamentação: O Que Muda?
Após o nascimento do bebê, a boa notícia é que o metabolismo materno da cafeína retorna gradualmente ao normal. Porém, a cafeína ainda é transferida ao leite materno — embora em pequenas quantidades (cerca de 1% da dose ingerida pela mãe).
Impacto no Bebê Amamentado
Recém-nascidos e lactentes nos primeiros meses têm capacidade limitada de metabolizar cafeína. Isso pode resultar em irritabilidade, dificuldade para dormir e agitação — sintomas que toda mãe associará primeiro a cólicas ou outros fatores. Se você nota que seu bebê fica mais inquieto após suas sessões de mate, considere reduzir o consumo.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que lactantes mantenham o consumo de cafeína abaixo de 300 mg/dia — um pouco mais generoso que o limite gestacional. Ainda assim, a orientação é observar a reação individual do bebê.
Dicas Para o Período de Amamentação
- Tome chimarrão logo após uma mamada, assim a cafeína terá mais tempo para ser metabolizada antes da próxima
- Observe o comportamento do bebê: se ele fica mais agitado ou tem dificuldade para dormir, reduza a dose
- Mantenha-se bem hidratada — a garrafa térmica do chimarrão não substitui a ingestão de água pura
Para entender melhor como a cafeína afeta o sono, leia também nosso artigo sobre chimarrão e sono.
Alternativas Para Quem Prefere Evitar a Cafeína
Se a decisão médica for eliminar completamente a cafeína, há formas de manter o ritual sem a Ilex paraguariensis:
- Chimarrão de ervas: Algumas mateadoras preparam a cuia com misturas de ervas sem cafeína — camomila, erva-doce, hortelã — mantendo o gesto social da roda de chimarrão
- Erva-mate descafeinada: Opção que preserva o sabor original com redução de 80–90% da cafeína
- Tereré de frutas: Uma variação do tereré feito com sucos naturais e sem erva-mate, popular no Mato Grosso do Sul
Essas alternativas mantêm o aspecto social e ritualístico do mate — fundamental na cultura gaúcha — sem os riscos associados à cafeína.
O Que Dizem Outras Culturas Mateadoras
No Uruguai e na Argentina, onde o consumo de mate é igualmente intenso, as sociedades médicas locais fazem recomendações semelhantes: moderação durante a gravidez, com limite de 200 mg/dia de cafeína total. A diferença é que nesses países o mate amargo é consumido com erva de corte mais grosso, o que tende a liberar menos cafeína por litro — mas a sessão costuma ser mais longa, equilibrando a dose total.
Para quem está conhecendo agora o universo do chimarrão, nosso guia completo para iniciantes oferece uma introdução detalhada aos tipos de erva e formas de preparo.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quantas cuias de chimarrão uma grávida pode tomar por dia?
Não existe um número exato, pois depende da quantidade de erva, do número de reabastecimentos e de outras fontes de cafeína no dia. Como referência, uma sessão moderada com 30 g de erva e até 400 ml de água costuma fornecer entre 80 e 120 mg de cafeína — ficando dentro do limite de 200 mg/dia se for a única fonte.
Chimarrão pode causar aborto?
Não há evidência de que o consumo moderado de chimarrão (dentro do limite de 200 mg de cafeína/dia) cause aborto. No entanto, consumos elevados de cafeína — acima de 300 mg/dia — foram associados a maior risco de aborto espontâneo em estudos epidemiológicos. A moderação é a chave.
A erva-mate descafeinada é segura na gravidez?
A erva-mate descafeinada contém apenas traços residuais de cafeína (geralmente menos de 10 mg por sessão) e é considerada segura para gestantes. No entanto, consulte seu médico antes de incluí-la na rotina, pois cada gestação tem particularidades.
O chimarrão interfere no leite materno?
A cafeína passa para o leite materno em pequenas quantidades (cerca de 1% da dose materna). Na maioria dos casos, o consumo moderado não causa problemas, mas bebês mais sensíveis podem apresentar irritabilidade. Observe a reação do seu bebê e ajuste o consumo conforme necessário.
Este artigo tem finalidade exclusivamente informativa e educacional. Não substitui consulta médica. Se você está grávida ou amamentando, converse com seu obstetra ou pediatra sobre o consumo de cafeína adequado ao seu caso.